Entrevista ao Prof. Doutor Diogo de Lucena

Uma Documentativa Conversa com o Prof. Doutor Diogo de Lucena, Presidente do Conselho Geral da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Hospitalar
21 | maio | 2013
Texto: Carlos Gamito | carlos.gamito@iol.pt
Fotografia: João Pedro Jesus
Paginação e Grafismo: Marisa Cristino


O Prof. Doutor Diogo de Lucena, detentor de um vasto e notável currículo académico e profissional, actualmente administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, empresta os seus conhecimentos à Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Hospitalar (APDH) onde ocupa o cargo de Presidente do Conselho Geral.
Com uma peculiar afabilidade comunicativa, o Professor começou por nos informar que se licenciou em Engenharia Electrotécnica, no entanto, as insígnias de Doutor foram-lhe impostas pela tese que defendeu na área da Engineering Economics Sistems, circunstância que no dizer do Professor provocou a sua transição da engenharia para a economia, sentindo-se por isso mais economista do que engenheiro, mutação acrescida pelos muitos anos em que ministrou a disciplina de economia na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

O PORQUÊ DO CARGO QUE OCUPA NA APDH

Instado sobre as razões do seu dedicado abraço às causas que envolvem o sector da saúde – e a prová-lo está o cargo que ocupa na APDH –, o Professor Diogo de Lucena explicou-nos: «Durante a minha carreira académica interessei-me sempre pelos aspectos da economia na saúde, tendo sido uma das áreas onde, enquanto académico, trabalhei activamente. Participei em inúmeros debates públicos sobre a regulação do Estado Providência, em particular o financiamento da Saúde, Educação e Segurança Social, o que decerto terá estado na raiz do gentil convite que me foi endereçado pela Direcção da APDH para presidir ao Conselho de Membros.»

O DESEMPENHO DA APDH

Convidado a um olhar sobre o desempenho da APDH, o Professor foi objectivo: «Atendendo a que a APDH foi constituída há relativamente poucos anos (2002) – e aqui importa pensar os intentos da sua criação – considero que o trabalho até aqui desenvolvido tem-se mostrado francamente útil». E sublinhou: «Na minha opinião, estas Associações mostram-se bastante profícuas na mobilização de pessoas para determinadas acções, e faço esta referência porque defendo que não devem ser as entidades oficiais a fazê-lo formalmente, e a APDH, com algum esforço, tem promovido, de forma independente, debates de elevado interesse para o desenvolvimento da saúde pública em Portugal.»

A ACTUAL CONJUNTURA ECONÓMICA DEIXA A NU AS COMPETÊNCIAS DOS GESTORES

O actual panorama económico em que o nosso País está mergulhado, situação altamente preocupante, tem atravessado transversalmente todas as prestações de serviços públicos, o que, e aqui em discurso directo, nos suscitou esta pergunta ao nosso interlocutor: Senhor Professor, os hospitais, também eles afectados pelas fortes contenções financeiras, conseguem responder de forma eficaz ante os utentes que a eles acorrem? O Professor foi peremptório: «Sobre esse assunto permita que lhe diga que as situações nunca passam do zero aos cem nem vice-versa. Ou seja, os números que nos são apresentados indicam que há hospitais onde é possível poupar recursos, e a poupança de recursos é uma medida de extrema importância. Sem dúvida que estamos a viver uma fase em que as contenções financeiras são acentuadíssimas, mas são estas contingências que deixam a nu a competência dos gestores em saberem resolver os problemas sem que, no caso concreto dos hospitais, haja lugar a qualquer tipo de prejuízo para os seus doentes.» E acrescentou: «Estamos a falar de pura gestão, e nem todos os cortes são igualmente maus para a prestação de cuidados de saúde, o que me leva a dizer-lhe que existem capacidades para reafectar recursos e readaptar a gestão de modo a minimizar todo e qualquer impacto junto dos doentes.»

AINDA A FAMIGERADA LISTA DE ESPERA PARA CIRURGIAS

Nesta fase da conversa confrontámos o Professor Diogo de Lucena com uma realidade que persiste em não ser resolvida, na circunstância a famigerada lista de espera para cirurgias.
Segundo informação oficial que recolhemos, constata-se que existem doentes com obesidade mórbida que aguardam há dez anos pela cirurgia que lhes oferecerá uma nova qualidade de vida. Sublinhamos: doentes que esperam há dez anos por uma cirurgia.
Colocada a questão, o Professor fez uma pausa quase imperceptível e avançou: «Essas situações reflectem simultaneamente dois problemas: o problema de organização global do sistema e o problema dos incentivos para as decisões». E sublinhou: «A utilização da palavra “incentivo” é muito perigosa, e é perigosa porque na maioria das vezes é mal interpretada, mas para que não se estabeleçam eventuais deturpações, devo enquadrar o termo “incentivo” neste esclarecimento: em Portugal, seja em que área for, é prática quase comum financiarem-se os custos e não os benefícios, quando o importante seria financiar os benefícios, e isso sim, na minha opinião representaria uma alteração na atribuição de incentivos, mas proceder a uma modificação dessa natureza provocaria, muito naturalmente, uma alteração muito acentuada do comportamento de quem está no terreno a tomar as decisões no dia-a-dia.»

 

O PROFESSOR ANTEVÊ ALTERAÇÕES PROFUNDAS NO SERVIÇO NACIONAL DE SAÚDE

Estávamos no fim desta elucidativa conversa, todavia faltava-nos a derradeira pergunta ao Professor Diogo de Lucena. Colocámo-la: Senhor Professor, o actual desenho em que está sustentado o Serviço Nacional de Saúde (SNS) é desejável que se mantenha? «Não, não é de todo desejável que o SNS se mantenha tal como está.» E objectou: «Olhando para o futuro, encontramos vários problemas, nomeadamente o envelhecimento da população. O envelhecimento da população vai trazer problemas que para além de novos serão diferentes, e o desenho do nosso SNS, dentro de dez ou quinze anos não vai ter capacidade de resposta para os casos que irão surgir, o que me leva até a pensar que o modelo de hospital de hoje deixará de fazer sentido num futuro próximo.» Ante o nosso olhar interrogativo, o Professor detalhou: «Como sabe, a ocupação de uma cama de hospital atinge valores elevadíssimos, e as patologias advindas do envelhecimento populacional estou certo de que podem ser assistidas num hospital de retaguarda, sendo por isso dispensáveis os hospitais tão diferenciados como os que existem actualmente. Paralelamente assistimos ao avanço da tecnologia que vai permitindo encaminhar os doentes para dentro das soluções, sendo que já muitas doenças são controladas pelo próprio doente, como por exemplo a diabetes.» E concluiu: «O médico é um especialista muito caro, pelo que acredito numa distribuição de tarefas no seio dos profissionais de saúde, e, simultaneamente, estou certo que serão levadas a cabo muitas acções informativas junto das populações de modo a criar plataformas de sensibilização e conhecimento, na perspectiva de gerar condições para que um significativo número de patologias trazidas pelo envelhecimento não obedeça a tratamentos em ambiente hospitalar.»

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