Entrevista ao Dr. Luís Portela

 A BIAL vista pelo seu presidente, Dr. Luís Portela
6 | junho | 2013
Texto: Carlos Gamito | carlos.gamito@iol.pt
Fotografia: João Pedro Jesus
Paginação e Grafismo: Marisa Cristino

 

 


Derrubando todos os formatos considerados padrão para a feitura de uma entrevista escrita, eis-nos a tomar a liberdade de começar com um testemunho: quanta vontade a nossa de terminar esta peça jornalística pontuada não com o costumado ponto final, mas antes com uma vírgula. Porquê? Não porque tivéssemos omitido qualquer opinião ou declaração do entrevistado, mas antes porque estamos a tratar de uma entrevista e não de um livro, mas quantas foram as questões que – para não tornar o texto fatigante mas sim apelativo – ficaram por colocar ao Dr. Luís Portela, Chairman do Grupo BIAL – Laboratório Farmacêutico.

UMA PÁGINA DOS VOLUMOSOS ANAIS ONDE ESTÁ DESCRITO O NASCIMENTO DA BIAL
O Dr. Luís Portela, sempre enovelado na extrema amabilidade que o caracteriza, emprestou-nos algum do seu tempo para esta documentativa conversa que começou com um olhar lançado ao passado.
Um passado que guarda a história do nascimento do Laboratório BIAL.
Escutemos a singeleza das palavras do Dr. Luís Portela que relatam o eco dos primeiros passos do maior grupo farmacêutico nacional: «O meu avô Álvaro começou, ainda muito novo, a trabalhar ao balcão de uma farmácia. Era um rapaz muito desenvolto e a quem sobravam ideias. O proprietário da farmácia, o então Senhor Almeida, com a passagem dos anos criou uma confiança quase ilimitada no meu avô, não só pelo seu afinco ao trabalho como também pelo espírito determinado e empreendedor que apresentava. Imagine que sempre com a estreita colaboração do meu avô, a farmácia, a partir de dado momento, começou a abrir as portas ao público às cinco e meia da manhã». Sem ser interrompido, o Dr. Luís Portela continuou: «Na perspectiva de oferecerem melhor qualidade à actividade, o meu avô propôs ao patrão que construísse um pequeno laboratório no andar por cima da farmácia. O Senhor Almeida anuiu e foi construído, no primeiro andar, um laboratório de apoio. O negócio se já corria bem, começou a correr ainda melhor, o que levou o meu avô a sugerir ao patrão que criassem um laboratório tipo industrial, o que há data – estamos a falar de 1919 – praticamente não existia em Portugal. A ideia do meu avô foi bem acolhida pelo Senhor Almeida e em sociedade formaram uma empresa que por vontade de ambos deveria denominar-se BIOL, de Biologia, no entanto o nome não foi aprovado, e em alternativa, porque um se chamava Almeida e o outro Álvaro, decidiram optar pela primeira sílaba do nome de cada um, e daí a designação BIAL.»
Esta viagem no tempo, já quase secular, terminou com um último esclarecimento deixado pelo Dr. Luís Portela: «O processo de formação da empresa foi iniciado em 1919, mas só em 1924 é que as formalidades burocráticas e logísticas ficaram concluídas. Nessa altura, decerto que fruto do cansaço e pela idade já avançada, o Senhor Almeida terá dito ao meu avô que já não se sentia em condições de continuar a trabalhar, e então acordaram entre eles que seria o meu avô a ficar com os desígnios da empresa, pese embora sempre com o apoio do Senhor Almeida. E assim, em 1924, nasceu a BIAL.»

A BIAL JÁ OPERA NO MERCADO DE CINQUENTA E DOIS PAÍSES. AS PRÓXIMAS FRONTEIRAS A RASGAR SERÃO AS DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA E DO CANADÁ
Dobradas que estão as nove décadas sobre a abertura da BIAL, hoje a empresa opera em cinquenta e dois países do mundo, nomeadamente na Europa, África e América Latina, internacionalização iniciada há sensivelmente vinte anos. Segundo o Dr. Luís Portela tem sido um processo muito complexo mas francamente positivo, e a prová-lo está o mercado espanhol onde a empresa emprega duzentos e oitenta trabalhadores e factura cinquenta milhões de euros por ano. O derrube de novas fronteiras está previsto para finais do corrente ano início de 2014, data em que a BIAL se implementará nos Estados Unidos da América e no Canadá.

A BIAL CONTA NOS SEUS QUADROS COM CENTO E VINTE INVESTIGADORES CIENTÍFICOS
A investigação científica tem sido um dos fortes pilares onde assenta o sucesso da BIAL, o que nos levou a questionar o Dr. Luís Portela se, ao contrário do que é voz corrente, em Portugal existem condições para o desenvolvimento de projectos de investigação. A sua resposta foi vertical: «Em Portugal há excelentes condições para se desenvolver investigação científica. Ao longo dos últimos quinze anos, graças a uma política de grande investimento científico, temos vindo assistir a um acentuado crescimento do número de investigadores, e por consequência a produtividade científica tem vindo a crescer exponencialmente, e actualmente o País conta com enormes valores no seio da ciência, nomeadamente na área da saúde». E salientou: «Devo ainda adiantar-lhe que em Portugal só não é prática comum as instituições universitárias utilizarem esses conhecimentos acumulados e conduzi-los à efectivação de novos medicamentos, e foi isso que a BIAL procurou fazer com a criação de uma rede com institutos de investigação nacionais e internacionais, o que me leva a afirmar-lhe que nos últimos vinte anos, nós, BIAL, estabelecemos contratos com cento e dezasseis centros de investigação, e só desta forma é que conseguimos elaborar e levar novos produtos ao mercado mundial».
Convirá também informar que a BIAL conta actualmente nos seus quadros com cento e vinte investigadores, dos quais cerca de trinta são doutorados, sendo todos oriundos de nove países diferentes mas do universo europeu.

A POLÍTICA DO PREÇO DOS FÁRMACOS DEVE SER EQUILIBRADA E RACIONAL
Com a conversa centrada no medicamento, suscitou-nos instar o mais alto responsável pelo maior laboratório nacional sobre a política do preço dos fármacos em Portugal. O Dr. Luís Portela foi frontal: «O que se me oferece sobre esse assunto é que nos dias que estamos a viver as pessoas têm que ser muito rigorosas, e atendendo a que os portugueses estão com a esperança de vida aumentada e estamos num período de crise profunda, entendo que todas as instituições devem oferecer o seu contributo e procurar viver o momento com coragem e com uma dinâmica enquadrada no actual panorama económico. O Governo, ante este quadro tem entendido fazer alguns cortes no preço dos medicamentos assim como tem deliberado a criação e promoção de cópias – os designados produtos genéricos –, e na minha opinião a indústria farmacêutica tem que aceitar essas medidas, todavia importa que essas mesmas medidas sejam equilibradas e racionais, porque se não existir a preocupação de considerar a situação do tecido industrial bem como o comércio farmacêutico, corre-se o sério risco de arruinar o que ao longo dos anos foi construído em Portugal.»

LUÍS PORTELA, UM HOMEM SEM FÉ MAS QUE ACREDITA NA SUCESSÃO DA VIDA
A BIAL estava visitada, agora faltava-nos descobrir o Homem, o Gestor, o Médico.
O Homem sem fé mas que acredita na sucessão da vida.
Vamos, em discurso directo, transcrever a conversa que entabulámos com o Dr. Luís Portela.
Dr., diz-se um homem sem fé mas que acredita na sucessão da vida. Quer explicar-nos o significado desta afirmação? O momentâneo silêncio que se estabeleceu foi ornado por um rasgado sorriso deixado pelo Dr. Luís Portela, depois soou a voz pausada e bem recortada do nosso interlocutor: «Essa afirmação significa que eu tenho muita dificuldade em perceber porque é que a humanidade, sob o ponto de vista da fé, aceita de forma fácil a existência de vida para além da morte, no entanto, essa mesma humanidade, sob o ponto de vista científico nega essa eventual realidade, o que me leva a pensar que existe alguma incongruência nesta posição. Eu não sou um homem de fé no sentido de partilhar qualquer religião, no entanto tenho uma forte convicção de que existe vida para além da morte física. Há quem lhe chame alma, outros chamam-lhe espírito, e eu por ter a firme convicção de que existe algo para além da morte física, considero-me um espiritualista. Só não me sinto religioso porque não tenho necessidade de partilhar os caminhos das religiões, pese embora as respeite integralmente». E com palavras verticais concluiu: «Entendo perfeitamente que muitas pessoas, por uma questão de fé, se ajoelhem a suplicar um favor a uma entidade divina, todavia, quanto a mim parece-me muito mais racional e construtivo que a pessoa, através do seu próprio esforço, procure as condições necessárias para que as coisas aconteçam».

“RESPEITO AS EMPRESAS QUE SE LIMITAM A COPIAR O QUE OS OUTROS FAZEM SEM QUE PARA TANTO SE SUJEITEM AOS ELEVADÍSSIMOS INVESTIMENTOS A QUE OBRIGA A INVESTIGAÇÃO”, PALAVRAS DO CHAIRMAN DA BIAL
Com um salutar e confortável clima entretanto instalado no seio da conversa, lançámos outra questão que motivou, num primeiro momento, o desprendimento de sonoros risos: Dr., é verdade que quando vai com a sua esposa fazer compras ao supermercado escolhe sempre produtos de marca e nunca produtos da chamada marca branca? Será que essa selecção é um indicador de que a BIAL jamais produzirá medicamentos genéricos? Entre risos quase incontroláveis, o Dr. Luís Portela foi peremptório: «Na vida nunca devemos dizer “que dessa água não beberei”, mas creia que estou convencido que a melhor forma de uma empresa farmacêutica como a BIAL servir os interesses das pessoas – e estamos a falar de saúde – centra-se na preocupação em tentar encontrar produtos de alta qualidade e que se mostrem capazes de vencer as patologias que infelizmente vão destruindo a saúde e a vida de todos que são atingidos pela doença. Eu acredito numa medicina inovadora e preventiva, mas reitero que respeito as empresas que se limitam a copiar o que os outros fazem, sem que para tanto se sujeitem aos elevadíssimos investimentos a que obriga a investigação».
A este propósito registámos que a BIAL investe anualmente mais de quarenta milhões de euros em investigação científica, o que corresponde a cerca de vinte por cento da facturação total.

A ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA PARA O DESENVOLVIMENTO HOSPITALAR APRESENTA-SE COMO UM FORTE CONTRIBUTO PARA A MELHORIA DA PRESTAÇÃO DE CUIDADOS NOS HOSPITAIS PORTUGUESES
E contra a nossa vontade, sentimos a aproximação do ponto final que assinalará o fim desta documentativa entrevista, mas como o tempo não oferece tréguas ao próprio tempo, também nós ficámos sem mais tempo, restando-nos só tempo para a derradeira pergunta que endereçámos ao Dr. Luís Portela, aqui na sua qualidade de Membro do Conselho Geral da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Hospitalar (APDH).
Dr., aceite desde já o nosso agradecimento pela gentileza com que nos recebeu e permita-nos sublinhar a boa-disposição que regeu esta documentativa entrevista. Terminamos a solicitar a sua opinião sobre o trabalho que tem sido desenvolvido pela ADPH, na qual o Senhor integra o Conselho Geral. «Enquanto Membro do Conselho Geral da APDH devo começar por lhe dizer que tenho o maior respeito e admiração pelo trabalho que tem sido desenvolvido pela Associação». E acentuou: «Os hospitais portugueses prestam um belíssimo serviço à população, mas lamentavelmente não são raras as vezes em que a comunicação social pratica severas injustiças quanto à assistência médica prestada pelos nossos estabelecimentos de saúde, mas estou absolutamente convencido que a APDH, dentro da sua linha de actuação, vai conseguir melhorar cada vez mais a prestação dos cuidados de saúde nos hospitais em Portugal.»

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