Entrevista ao Dr. Paulo Espiga
| As verticais e substantivas reflexões do Dr. Paulo Espiga 20 | Maio | 2014 Texto: Carlos Gamito | carlos.gamito@iol.pt Fotografia: João Pedro Jesus Paginação e Grafismo: Marisa Cristino |
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O Dr. Paulo Espiga, nesta documentativa entrevista deixou os seus conhecimentos sobre o complexo mosaico onde assentam os cuidados de saúde em Portugal.
A licenciatura em Geografia e Planeamento Regional, na vertente Geografia Humana, serviu de catalisador para a sua formação em Administração Hospitalar ministrada e concluída em 2003 pela Escola Nacional de Saúde Pública.
UM MARCO NO AINDA CURTO PERCURSO PROFISSIONAL DO DR. PAULO ESPIGA
Olhando ao percurso profissional deste Administrador Hospitalar, convidámo-lo a destacar uma das funções que tenha exercido, até à data, e que se mostre como um cunho na sua ainda jovem carreira. O Dr. Paulo Espiga, sempre a ornar as palavras que ofereceram corpo a esta entrevista com um amável sorriso, respondeu: «O meu percurso na área da saúde ainda é relativamente curto, mas o cargo que ocupei como director executivo no Agrupamento de Centros de Saúde do Alentejo Litoral, foi, até hoje, a experiência que confesso ter sido a mais gratificante.» E sublinhou: «Foi a mais gratificante sobretudo por ter sido um projecto a iniciar de raiz. Estou a falar-lhe de cinco Centros de Saúde estabelecidos em regiões distintas do País e onde se verificavam enormes dificuldades a todos os níveis, sendo a desmotivação dos profissionais e o “sentimento de abandono” as maiores delas. No entanto, em conjunto com a fantástica equipa de profissionais que integrei, conseguimos concretizar um excelente trabalho que, começado quase do zero, acabou reconhecido por diversas entidades responsáveis pelo sector da saúde, pela comunidade, pelos profissionais e, creio, também pelos utentes. Neste percurso não posso deixar de salientar o suporte fundamental que recebemos do então Conselho Diretivo da ARS Alentejo, em particular da sua Presidente, Dra. Rosa Valente Matos, que, pela forma como sabe pensar a saúde a longo prazo e consegue materializar esse pensamento, faz de si, na minha opinião, uma das figuras mais brilhantes do País no domínio da gestão pública em saúde.» Adiantou-nos ainda o Dr. Paulo Espiga que desempenhou estas funções entre os anos de 2009 a 2012.
OS CUIDADOS DE SAÚDE PRIMÁRIOS SEMPRE ESTIVERAM CONFRONTADOS COM EXTREMAS DIFICULDADES FINANCEIRAS
Os substantivos cortes orçamentais transversais a todo o sector público, onde estão naturalmente incluídos os cuidados de saúde, levaram-nos a instar o Dr. Paulo Espiga sobre as eventuais consequências advindas destas medidas numa área tão sensível quanto a assistência na saúde. A sua resposta foi esclarecedora: «Apesar da preocupante situação que estamos a viver, devo dizer-lhe que no plano dos cuidados de saúde primários, área que conheço melhor, têm-se verificado de facto alguns problemas, mas muito associados com a reposição de recursos humanos. Por variadíssimas razões, quer reformas ou outras, os profissionais vão saindo das instituições e a falta de pessoal é uma realidade que se tem vindo a agravar, no entanto, para além disso, o sistema vai dando resposta às necessidades.» E detalhou: «Defendo que a saúde tem que ser pensada como um todo e nunca a deveremos individualizar. É do conhecimento geral que as populações estão com problemas acrescidos e com especial incidência nos problemas do foro psicológico que resultam do panorama socioeconómico, os quais, naturalmente, acabam por se reflectir na procura de cuidados de saúde, provocando desse modo alguns constrangimentos nos serviços, no entanto reafirmo-lhe que a nível dos cuidados primários essas contenções não se têm feito sentir de modo significativo na actividade corrente, mas convirá lembrar que nesta área do sistema de saúde os recursos financeiros sempre estiveram aquém das necessidades, daí podermos considerar que os cortes orçamentais não se façam sentir tanto como por exemplo nos hospitais.»
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“NALGUMAS ZONAS DO PAÍS, A MISSÃO ATRIBUÍDA AOS CUIDADOS PALIATIVOS JÁ RESPONDE MUITO SATISFATORIAMENTE”
Segundo um estudo recentemente tornado público, foi anunciado que num universo de cada dez doentes em fase terminal, só a um são dispensados cuidados continuados, o que nos levou a questionar o Dr. Paulo Espiga se em Portugal as pessoas não têm o direito de morrer com o mínimo de dignidade. A perceção que nos transmitiu foi a de que: «Se recuarmos no tempo, e basta que recuemos dez/quinze anos, no nosso País só as pessoas conhecedoras e interessadas na matéria falavam em cuidados continuados, no entanto neste curto espaço de tempo, mesmo com as condições adversas a nível económico e financeiro, a rede entrou em franco desenvolvimento e, nalgumas zonas do País, a missão atribuída aos cuidados continuados e paliativos já responde muito satisfatoriamente.»
A este propósito adiantou-nos ainda o Dr. Paulo Espiga que as populações estão a envelhecer muito rapidamente, e nessa perspectiva não é fácil conseguir uma adaptação imediata de toda a estrutura de prestação de cuidados de saúde e de suporte.
O SERVIÇO NACIONAL DE SAÚDE OBEDECE NECESSARIAMENTE A UMA REESTRUTURAÇÃO
A conversa continuou centrada nos musculados cortes orçamentais aplicados na área da saúde, e sobre esta preocupante deliberação o Dr. Paulo Espiga avançou com uma reflexão a considerar: «Na área dos cuidados primários estão a ser transferidas para o cidadão um conjunto de exigências financeiras que, julgo, uma boa parte não tem condições para fazer frente, como por exemplo os valores aplicados nas taxas moderadoras, ou o aumento da comparticipação do utente em alguma medicação e outras prestações de saúde, situações que vão necessariamente acarretar, a curto prazo, consequências no acesso e no estado de saúde das populações. Têm que ser definidos os desígnios do sistema de cuidados de saúde. E interroga-se: «Será que a intenção é entregar a gestão a entidades privadas? Será que o sistema só fica acessível às pessoas mais carenciadas? Ou será que estas são “apenas” dificuldades inerentes à própria situação económico-financeira que vivemos?». Sempre atento às suas próprias palavras, afirmou o Dr. Paulo Espiga: «Nós, enquanto sociedade, temos que nos debruçar sobre o futuro e aceitarmos como inevitável a mudança do actual modelo de prestação de cuidados de saúde. É verdade que têm sido feitas algumas mudanças muito positivas, nomeadamente ao nível do combate à fraude, do desperdício, do medicamento, dos sistemas de informação e algumas outras, mas é imprescindível continuar a pensar estrategicamente numa reestruturação do Serviço Nacional de Saúde».
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A APDH VISTA PELO DR. PAULO ESPIGA ENQUANTO MEMBRO DA DIRECÇÃO
Indiferentes ao tempo e ao espaço, as substantivas reflexões do Dr. Paulo Espiga iam fluindo e corporizando a entrevista, no entanto e na perspectiva de não tolhermos a atenção do leitor, endereçámos a nossa derradeira pergunta a este membro da Direcção da APDH – Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Hospitalar.
Dr. Paulo Espiga, terminamos com um sentido agradecimento pela gentil atenção e deixamos-lhe a nossa última questão: como qualifica o trabalho que tem sido desenvolvido pela APDH? «A APDH, enquanto Associação para o desenvolvimento hospitalar, através do empenho dos seus membros, tem feito, na minha opinião, um trabalho que tem ido para além daquilo que é o hospital e contribuído para a discussão e replicação do conhecimento sobre as restantes áreas do Serviço Nacional de Saúde e do Sistema Nacional de Saúde».
«Tentámos erguer a discussão sobre outras matérias e hoje dispomos de um vasto programa de acções de formação que visam oferecer mais capacitação aos profissionais de saúde. Paralelamente organizamos debates que englobam várias problemáticas como a segurança do doente; o envelhecimento; a contratualização; a qualidade em saúde e outros temas discutidos em conferências, seminários e encontros realizados nos mais diversos pontos do País, sendo a “descentralização da discussão” uma das nossas preocupações e um dos deveres para com os nossos associados».
E o Dr. Paulo Espiga terminou o seu raciocínio a exultar os eventos que envolvem a atribuição dos “Prémios de Boas Práticas em Saúde”.




