SNS, Qualidade e Cultura de Segurança

 “SNS, Qualidade e Cultura de Segurança”, foi o tema a que se subordinou a 2.ª Sessão de 2013 das “Conversas de Fim de Tarde”, promovidas pela APDH
20 | Setembro| 2013
Texto: Carlos Gamito | carlos.gamito@iol.pt
Fotografia: João Pedro Jesus
Paginação e Grafismo: Marisa Cristino

 

A Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Hospitalar – APDH, no cumprimento da sua missão que determina o desenvolvimento e a repartição do Conhecimento e do Saber, no âmbito da 9.ª Edição Anual da “Promoção da Cultura de Segurança na Prestação de Cuidados de Saúde”, ergueu a 2.ª Sessão de 2013 das designadas “Conversas de Fim de Tarde”.
A Reunião, subordinada ao tema “SNS, Qualidade e Cultura de Segurança”, decorreu na Escola Superior de Tecnologia de Saúde/Instituto Politécnico de Coimbra – ESTeS/IPC, e teve lugar no pretérito dia 20 de Setembro de 2013.
A sessão de trabalhos foi aberta pela Prof.ª Doutora Ana Escoval, Presidente da Direcção da APDH, e pelo anfitrião do evento, Prof. Doutor João Joaquim, Presidente do Conselho Científico da ESTeS/IPC.

COMUNICAÇÕES/APRESENTAÇÕES

O formato delineado para a apresentação de comunicações destas Reuniões foi exercido, e novas experiências e conhecimentos foram comutados.

“A segurança do doente e o 5º nível de prevenção – prevenção quarternária”, foi o estudo apresentado pelo Prof. Doutor Henrique de Barros – FMUP.

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“Parceiros na Segurança – Doente/Acompanhante na Prevenção da Transmissão Cruzada”, foi o trabalho desenvolvido e apresentado por Aura Lopes (Técnica de Radiologia); Céu Assis (Enfermeira); Fátima Caetano (Enfermeira); Gisela Queirós (Enfermeira), e Lília Coutinho (Enfermeira), profissionais de saúde a exercerem no Centro Hospitalar Lisboa Norte.

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“Identificação do Doente Internado”, este o título da comunicação feita e apresentada pela equipa constituída por: Ana Terezinha Rodrigues (Técnica de Radiologia), Ana Melo; Luísa Caetano; Odília Neves; Paula Breia, e Iria Velez, grupo de profissionais de saúde a desempenhar funções no Hospital Garcia de Orta.

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“Adesão à Terapêutica nos Cuidados de Saúde Primários”. Foi este o tema da palestra apresentada pelo Prof. Doutor Rui Cruz, Técnico de Farmácia e Professor Coordenador da ESTeS/IPC.

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ESPAÇO ABERTO A DEBATE E COMENTÁRIOS

O Encontro foi amplamente participado, e após a apresentação das quatro comunicações extremamente bem estruturadas e escoradas em ilustrativos diapositivos, foi aberto um espaço de debate e comentários, estes a cargo respectivamente do Prof. Doutor Alcino Maciel Barbosa, médico especialista em Medicina de Saúde Pública e em Epidemiologia; Dr. José Luís Biscaia, médico especialista em Medicina Geral e Familiar e Coordenador da Unidade de Saúde Familiar de São Julião – Figueira da Foz, e a Dra. Manuela Mota Pinto, jurista e Administradora Hospitalar do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. Também o Prof. Doutor Henrique de Barros, médico especialista em Gastrenterologia e Professor Catedrático de Epidemiologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, tomou assento na mesa dos comentadores.
Fazendo jus à designação – “Conversas de Fim de Tarde” –, o Encontro tangeu uma salutar informalidade, a qual emprestou aos congressistas a possibilidade de trocarem impressões não só entre si como endereçá-las aos moderadores e aos palestrantes.

A VACINAÇÃO E OS TESTES DE PSA FORAM OBJECTO DE ANÁLISE POR PARTE DO PROFESSOR HENRIQUE DE BARROS

O Professor Henrique de Barros, aquando da sua pormenorizada dissertação no período das comunicações, abordou temas e defendeu posições que prenderam, literalmente, a atenção dos muitos presentes, e nós, com o propósito de oferecermos uma informação mais detalhada, no final dos trabalhos instámos este docente de Epidemiologia sobre algumas das questões por si trazidas a público.
Atente-se:
Senhor Professor, na sua comunicação fez referência à importância da prevenção como elemento fulcral na saúde das pessoas, todavia adiantou que a vacinação obedece a critérios muito, mas muito apertados. Quer explicar melhor esta alegação? «Explico, e a explicação é muito simples. As vacinas não têm todas nem o mesmo valor nem a mesma eficácia na saúde das populações. Se por um lado sabemos que perante alguns casos a vacinação é um procedimento inequívoco, situações que nos levam a pugnar para que nada falhe, por outro lado podemos estar a utilizar vacinações como mais uma tecnologia disponível, e com ela podemos estar a mexer demasiadamente depressa na nossa história de seres vivos, a qual necessitou de milénios para criar e estabelecer equilíbrios com o sistema imunológico. Ora, nessa perspectiva, as vacinações podem vir a provocar efeitos contrários aos desejados».
Pese embora as condições logísticas em que decorreu esta breve entrevista não tivessem sido as apropriadas – a conversa aconteceu em plena rua –, o Professor, sempre muito atento às suas próprias palavras, observou: «Se reparar, estamos a assistir a um acentuado crescimento de pessoas a sofrerem de asma, e isto porquê? Porque provavelmente algumas das opções em termos de vacinação modificaram a nossa capacidade de resposta imunitária num tempo e numa cadência que acaba por resultar em efeitos indesejáveis». E a terminar o seu raciocínio, o docente voltou a sublinhar os cuidados acrescidos que devem ser observados com a administração de vacinas, e adiantou que pelo facto de se encontrarem disponíveis no mercado, não significa que possam ser utilizadas indiscriminadamente.
O Professor Henrique de Barros, num determinado momento da sua alocução aludiu à prática, hoje comum, dos testes de PSA, e sobre esta matéria registámos o parecer deste especialista: «Relativamente aos testes de PSA, está bem demonstrado que os falsos positivos e as intervenções intempestivas trouxeram muito mais desconforto e muito menos qualidade de vida, ao invés do que se ganhou até em anos de vida. Porquê? Exactamente pela detecção mais precoce da doença». E frisou: «O PSA tem utilidade para acompanhar os doentes cuja patologia já foi diagnosticada, mas como forma de rastreio universal, não podemos equiparar os testes de PSA ao rastreio do cancro do colo do útero, por exemplo.  O rastreio do cancro do colo do útero nas mulheres é uma inequívoca vantagem de saúde pública, já o rastreio do cancro da próstata através do PSA cria mais problemas do que aqueles que resolve».


AS OPINIÕES EXPRESSAS PELO PROFESSOR JOÃO JOAQUIM, PRESIDENTE DO CONSELHO CIENTÍFICO DA ESTES/IPC

Por motivos de agenda, não nos foi possível entrevistar o Prof. Doutor João Joaquim aquando do decurso dos trabalhos levados a termo na sessão “Conversas de Fim de Tarde”, no entanto e pelo elevado interesse em que estão arreigadas as opiniões desta ilustre figura das Ciências Farmacêuticas, enviámos, via correio electrónico, algumas questões que prontamente mereceram a atenção e respectivas respostas do Professor.
De acordo com o solicitado pelo Professor João José Joaquim, cumpre-nos informar que as afirmações aqui expressas são da inteira responsabilidade deste docente e sem qualquer vínculo à Escola Superior de Tecnologia de Saúde/Instituto Politécnico de Coimbra. 

Senhor Professor, qual a Sua formação académica?
Licenciado em Farmácia, Mestre em Toxicologia e Doutorando em Farmácia e Saúde.

Decerto que seria exaustivo estar a descrever os Cursos que são ministrados na ESTeSC, pelo que lhe solicito o endereço electrónico onde os interessados possam colher essa informação.
A Escola disponibiliza actualmente 8 licenciaturas e 10 Mestrados. Informações detalhadas podem ser consultadas em www.estescoimbra.pt

A introdução dos genéricos no mercado do medicamento em Portugal, continua a não encontrar consenso no seio da classe médica bem como da farmacêutica, não quanto à qualidade, mas antes quanto à eficácia. Em face deste quadro, pergunto-lhe qual a Sua posição ante esta delicada matéria?
Efectivamente tem havido algum ruído que me parece ter pouco a ver com os medicamentos genéricos e mais com o tradicional poder corporativo. Penso que este debate, via comunicação social, a que estamos a assistir, é, para além de lamentável, um factor que gera desconfiança e certamente contraproducente no desejável esclarecimento da população, que penso ser um dever das organizações profissionais. O empowerment da sociedade, que não sendo ainda o desejável em matéria de medicamentos, permite contudo uma avaliação crítica sobre estes ataques entre responsáveis das profissões, que acredito levará a um descrédito e a uma cada vez maior desconfiança. Discutir na praça pública quem tem mais poder é o que está a acontecer e pouco tem a ver com o interesse dos doentes. Sobre os medicamentos genéricos posso dizer o seguinte: sou Presidente de uma Associação Profissional Europeia, e esta desconfiança que existe em Portugal sobre os genéricos não a reconheço no Espaço Europeu, onde as quotas de mercado são significativamente mais altas. Realço que alguns destes países são economicamente mais fortes e nem por isso deixam de “acreditar” nos medicamentos genéricos. Nem a qualidade nem a eficácia ou a segurança, que tendemos a esquecer, são colocadas em causa. Contudo se existe défice de qualidade ou de eficácia, então que se apresentem e discutam argumentos científicos de eficácia e de controlo de qualidade, mas de forma recatada, serena e responsável.

O actual panorama económico que assola o País está, na Sua opinião, a reflectir-se na qualidade da prestação de cuidados de saúde?
Numa avaliação baseada na percepção e no conhecimento do sector, não tenho dúvidas em acreditar que sim. A qualidade está a ser afectada, porque para além dos cortes que afectam os recursos disponíveis, estamos também a assistir a uma degradação do tecido profissional da saúde e não conseguimos capitalizar a excelência dos recursos humanos em saúde que formamos em Portugal, bem como introduzir mecanismos de motivação dos profissionais de saúde. Acredito fortemente que era possível reduzir custos mantendo um nível na qualidade de prestação dos cuidados de saúde, em patamares exigíveis num país como o nosso, mas não da forma como o estamos a fazer.

No que concerne à investigação científica, defende que devia existir uma cooperação mais estreita entre a indústria farmacêutica e as instituições académicas?
Definitivamente sim. Não só com a indústria farmacêutica mas com outras instituições, gerindo e partilhando o know how e a capacidade instalada, potenciando mais-valias para a sociedade através do desenvolvimento de investigação aplicada e promovendo o empreendedorismo em saúde.

Como se explica a constante e preocupante falta de medicamentos a dispensar aos doentes que acorrem às farmácias de oficina? Não devia ser criado um mecanismo que monitorizasse o abastecimento às farmácias de modo a evitar a falta de fármacos?
Explicação plausível não tenho a certeza que exista. Existem contudo algumas explicações que vão sendo apresentadas na comunicação social e que alegadamente explicam a falta de medicamentos nas farmácias e que passam por uma economia paralela de exportação, com casos já em tribunal, produção inadequada às necessidades do mercado, que a Indústria Farmacêutica tem rebatido. Um outro factor, que pode em situações particulares explicar a falta nas farmácias e que devia merecer a atenção do regulador, é o facto, de por alguns medicamentos, para situações específicas serem gratuitos, induzir uma procura desregrada, permitindo que os doentes consigam criar stocks em casa, às vezes superiores aos das farmácias, sem que em algum momento do circuito se consiga travar esta situação. Sobre o mecanismo de monitorização, ele já existe, quer nas farmácias, onde existe um sistema de notificação automático ao INFARMED dos medicamentos em falta em cada encomenda, quer directamente acessível ao público que pode reportar as faltas através dos seguintes contactos: falta.medicamento@infarmed.pt ou pelo tel. 217987250.

Senhor Professor, agradecemos-lhe o tempo que disponibilizou e terminamos a solicitar-lhe que deixe uma palavra acerca do trabalho que tem sido desenvolvido pela APDH.
Conheço a APDH há alguns anos por ter participado numa das “Conversas de Fim de Tarde” e desde aí tenho acompanhado o seu trabalho e as suas iniciativas. Reconheço à APDH uma dinâmica muito própria e muito “open mind” colocando em debate questões centrais e promovendo uma cultura multidisciplinar de reflexão, que reputo de extremamente válida, pertinente e acredito que geradora das mudanças que necessitamos, ainda que por vezes o esforço demore a mostrar resultados. Uma palavra também, de apreço e de estima, à Prof.ª Doutora Ana Escoval por ser a líder, certamente de uma grande equipa, que tem feito um esforço assinalável por manter viva a Associação na concretização dos seus objectivos. Realço e reforço o papel da iniciativa “Conversas de Fim de Tarde” pela capacidade de se aproximar da realidade, na discussão dos problemas, tentando fomentar soluções com interlocutores que estão no “terreno” e vivem o dia-a-dia das organização e gerem as expectativas dos doentes, por ser uma iniciativa descentralizada e que não esquece nenhum dos actores.

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