CRÓNICAS DE UMA PANDEMIA OU O RELATO DE UMA AVALANCHE

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Crónicas de uma pandemia ou o relato de uma avalanche
em 2020-05-13 Ano: 2020
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Autor(es)

Lúcio Meneses de Almeida
Médico Assistente Graduado de Saúde Pública
Presidente da Associação Portuguesa de Infeção Hospitalar

Nos últimos dias de janeiro recebi, na qualidade de Presidente da Associação Portuguesa de Infeção Hospitalar (APIH), um pedido de entrevista, por parte de uma jornalista de um periódico nacional. Questionava-me relativamente à epidemia de SARS-CoV-2 que grassava, desde o final de 2019, na China.
Respondi que, em 2002-2003, um outro coronavírus tinha provocado um “simulacro” de pandemia, com pouco mais de 8 000 casos confirmados em cerca de 30 países, de 3 continentes.     

Referi o facto dos profissionais de saúde terem sido um grupo de risco – donde a preocupação, por parte dos autores do plano de contingência nacional para a pandemia de gripe (DGS, 2007), nas medidas de controlo da infeção. Além da formação, treino e dotação em equipamentos de proteção individual, o plano previa serviços dedicados de primeiro contacto (os SAG).

Estes serviços, organizados pelas ARS, foram acionados a uma escala menor do que a inicialmente programada, em conformidade com a progressão, regional e local, favorável da pandemia de gripe de 2009 (“gripe A”).

Nada de novo, portanto, nem de aparentemente preocupante, opinei eu, tanto mais que Portugal adquiriu, no contexto da referida pandemia, experiência e competências no âmbito do planeamento, preparação e resposta a emergências globais em saúde pública.

É certo que o País dispunha, com a devida antecedência, de um plano de contingência nacional e de uma reserva medicamentosa. É, igualmente, certo que o SNS está longe de ter a robustez de então.

Mas a evolução do surto pelo novo coronavírus, ainda que necessariamente imprevisível, afigurava-se-me, à data da entrevista, não passível de preocupação de maior…

Colaborei, no âmbito da gripe pandémica de 2009, desde o planeamento nacional (2006-2007), até à preparação e resposta, nacional e regional (ARS Centro).

Em todos os momentos, senti um domínio relativo sobre a situação, a nível profissional e institucional, mesmo perante a incerteza inerente a uma epidemia por um agente de novo: o curso, clínico e epidémico, da pandemia de 2009 foi benigno; existia, previamente, uma terapêutica específica (antiviral); e uma vacina eficaz foi desenvolvida com a rapidez suficiente.

Mas, ao contrário de 2009, o ano de 2020 trouxe consigo uma tremenda tempestade global. Tempestade que se anunciou discretamente - tão discretamente quanto a resposta, nacional e internacional, foi tímida, numa fase inicial, mas inequívoca, da pandemia de COVID-19…

Perante a desvalorização da ameaça, feita por alguns países, e rumores de sonegação de dados pela China, a OMS persistia em não declarar a pandemia, contra toda a evidência epidemiológica e em contraciclo com a sua própria avaliação de risco global.

Em março, o número de casos explode na Europa e Portugal vê confirmado, no dia 2, o seu primeiro caso. No dia 11, a OMS declara, finalmente, a inevitável pandemia…

A ligação aérea entre Wuhan, primeiro epicentro pandémico, e Milão traduziu-se numa verdadeira “ponte aérea infeciosa” entre estas duas cidades e respetivos países.

A evolução epidémica foi comparável à de uma avalanche. E desafiadora, mesmo para os “veteranos” da primeira pandemia do século.
Durante o período de vigência do estado de emergência nacional, que hoje (02/05/2020) termina, um dia da pandemia pelo novo coronavírus era equivalente, em termos de intensidade psicológica, a um mês da pandemia de gripe de 2009…

O dia-a-dia foi sinónimo de volatilidade. Uma verdade, científica ou epidemiológica, podia não o ser no dia seguinte.

Perante a inexistência de uma vacina ou de antivirais, os profissionais de saúde e a população apelaram por medidas de saúde pública. Imperava o “quanto mais cedo melhor” ou o “agora ou nunca”… 

Tornaram-se evidentes, mesmo antes da sua declaração, os efeitos de “terrorismo global” da(s) pandemia(s); impunha-se, assim, uma estratégia de comunicação do risco. Alertei-o, especificamente, num artigo de opinião.

Mas tornava-se, antes de mais, vital a proteção do “exército” dos profissionais de saúde na linha da frente. Apelei-o, por diversas vezes, em contextos análogos ou de comunicação social, na qualidade de Presidente da APIH.

As dúvidas acumulavam-se, pondo em questão orientações das agências internacionais de saúde pública quanto à utilização e adequação dos equipamentos de proteção individual (EPI).

Transmissão por gotículas ou por via aérea? Máscara cirúrgica ou respirador? Em que contexto assistencial/de procedimentos? Utilização de EPI restrita aos profissionais de saúde ou alargada à população em geral? E, a mais aterradora das dúvidas em Saúde Pública, transmissão exclusivamente em período clínico ou também assintomática?

Os jornalistas inquiriam, os profissionais de saúde pediam esclarecimentos e o público aguardava, ansiosamente expectante.

Sucediam-se, na imprensa generalista e nas televisões, entrevistas por “alienígenas”, saídos de laboratórios ou de centros de investigação académica, num lamentável exercício de narcisismo profissional e de exibicionismo mediático, à conta de um curriculum que alardeava Masters e PhD em áreas só remotamente relacionadas…

Muito do conhecimento adquirido durante a resposta à primeira pandemia do século (“gripe A”) foi posto em causa pela presente pandemia de COVID-19. Foram, para mim e para muitos outros, momentos de angústia e de incerteza.

Incerteza que se mantém, mesmo tendo Portugal ganho a primeira batalha de uma guerra que será longa e muito difícil.

Vi tornados realidade - a uma escala global e, mesmo, nacional - alguns dos piores cenários que serviram de base ao planeamento de contingência da gripe pandémica que sobreveio em 2009. Isso foi-me particularmente doloroso.

E só não foi mais doloroso porque Portugal saiu relativamente poupado desta primeira onda (em progressão), comparativamente com países como a Itália ou a Espanha.

Mas, do meio das cinzas, emergiram ganhos secundários. Lavar as mãos voltou a ser uma “tecnologia de ponta” e a etiqueta respiratória, ativamente divulgada em 2009, consolidou-se como norma social.

A ansiedade diminuiu, mas a incerteza não.

Resta-nos uma certeza: é a de que esta pandemia de COVID-19 já abalou os próprios pilares da civilização humana.

Nada é, nem voltará a ser, como dantes.


Coimbra, 2 de maio de 2020