OPORTUNIDADES DENTRO DA CRISE

Oportunidades dentro da Crise
em 2020-06-19 Ano: 2020
Crónicas de uma pandemia_VF.png
Autor(es)

Eduardo de Brito Castela

Administrador Hospitalar

Young Executive Leader


No início da Pandemia COVID-19 um amigo meu enviou-me a seguinte mensagem “É normal que estejas confuso, quem não estiver confuso está mal informado”. Quando aceitei o desafio de escrever esta crónica achei que deveria citar esta frase. Não pela implícita alusão à confusão, mas pela clara necessidade de boa informação.

Na profissão de Administrador Hospitalar o planeamento adequado às necessidades e às legítimas expectativas dos utentes é uma realidade presente.  A boa informação, robusta e ampla, é vital para atingir os objetivos a que anualmente nos propomos.

Inevitavelmente o planeamento do ano de 2020 foi alterado por via das circunstâncias. A reorganização dos circuitos, a realocação de serviços e da força de trabalho foram durante a resposta à COVID-19 definidos e redefinidos em função das prioridades nunca esquecendo a cronicidade de outras doenças.

Tenho por defeito ou feitio encarar o presente a pensar no futuro e afirmo muitas vezes, como Teixeira de Pascoães, que “tenho saudades do Futuro”. Não poderia escrever esta crónica sem elencar algumas oportunidades que considero que se ergueram na preparação da resposta às necessidades em saúde. A exigência de resposta à COVID-19 atendendo a que as exigências anteriores se mantiveram são o grande desafio para o futuro próximo.

1 - A sobrelotação dos serviços de urgência com episódios de urgência não urgentes é uma realidade transversal a todos os hospitais do SNS. A resposta a esta pandemia poderá, por via da elevada referenciação pelo SNS 24, contribuir para uma alteração desta realidade.  

2 -  O elevado espírito de missão, sentido cívico e humano verificado nos últimos meses junto dos profissionais de saúde tem contribuído para que aos hospitais, linha última deste combate, se aliem autoridades locais, empresas e sociedades civil com empenho que nunca se tinha assistido. A aproximação entre estes diferentes agentes será um ganho na promoção e prevenção da saúde na medida em que os graus de dependências dos cidadãos (i.e. físicas, económicas, sociais) foram, em larga escala, tidos em consideração como determinantes em saúde;

4 – A adoção dos sistemas remotos de assistência (e.g. telemedicina), a hospitalização domiciliária e a descentralização de cuidados de ambulatório darão o impulso desejado para uma adequada resposta aos cidadãos, para uma retoma gradual da atividade e uma resposta Dual;

5 - Por último, a redefinição de circuitos e de procedimentos, o cumprimento da política de higienização dos espaços e resposta adequada às prioridades têm sido os principais temas de análise nas instituições hospitalares. A prioridade tem sido criar condições que permitam garantir a segurança para profissionais e utentes, assegurando-se um adequado distanciamento físico, atendendo às limitações de espaço físico disponível. A difícil implementação desta cultura levará a cabo uma diminuição de risco de contágio deste e de outros vírus.

Os hospitais são de per se instituições de elevado grau de exigência para a gestão. Não obstante a prestação de cuidados hospitalares, a investigação, o ensino e formação têm cada vez mais importância na melhoria dos cuidados prestados, bem como na criação de centros de excelência. Todas estas linhas de atuação estão naturalmente assentes no hospital enquanto entidade patronal e no hospital enquanto construído social. Muito provavelmente teremos de conviver com o CoronaVírus durante os próximos anos. 

A confiança dos portugueses nos profissionais de saúde e nas instituições hospitalares tem sido vital para o sucesso deste combate. O Serviço Nacional de Saúde, onde diariamente me orgulho de trabalhar, tem mostrado saber responder à confiança depositada pelos portugueses. Como diria Santo Agostinho nas suas confissões o tempo é um tempo presente: lembrança presente dos tempos passados, visão presente das coisas presentes e a esperança presente das coisas futuras.  Sobretudo neste tempo presente é necessário capacidade de liderança e de compromisso não para a resposta possível, mas para a melhor resposta.

Murtinheira, 5 de junho de 2020