GRAVIDEZ EM TEMPOS DE PANDEMIA…AS PESSOAS MAIS SORTUDAS!

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Gravidez em tempos de pandemia…as pessoas mais sortudas!
em 2020-06-23 Ano: 2020
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Autor(es)

Maria João Esperança da Silva

Enfermeira Especialista em Saúde Materna e Obstetrícia

Unidade de Cuidados na Comunidade Saúde a Seu Lado – Odivelas (ACES Loures-Odivelas – ARSLVT) 


Sou enfermeira especialista em saúde materna e obstetrícia e costumo apresentar-me com o lema “há 19 anos a tentar que as grávidas sejam felizes!”. Uma tarefa por vezes…complexa!

Desde 2018 que estou completamente dedicada ao acompanhamento de grávidas, mulheres ao longo da sua vida reprodutiva e dos seus bebés, no âmbito da unidade de cuidados da comunidade de Odivelas. Este projeto de atuação na comunidade foi e é, um desafio. Um desafio que se ultrapassa com muita imaginação e flexibilidade para proporcionar consultas de enfermagem individuais, atividades de grupo, contactos telefónicos, envio de emails e muita pesquisa de outros exemplos de atuação para perceber o que se adequa a cada família e o que se pode melhorar. 

Uma mistura entre atividade presencial e à distância em que a disponibilidade, a adequação da resposta às necessidades individuais de cada grávida, mãe e bebé são essenciais. Os recursos materiais não são os que desejaria e a necessidade de investimento é ainda mais premente, nos dias que correm, mas tento fazer o melhor possível com o que tenho disponível.

Quando a estrutura já estava mais alinhada surge…o confinamento, a situação de pandemia e o completo revirar das vidas de todos nós. Incluindo de quem estava grávido…e das recém-mães!

As unidades de saúde começaram a viver rápidas reorganizações, com a redefinição dos seus espaços físicos, readaptação de recursos humanos e definição de circuitos que salvaguardassem a segurança de profissionais e utentes. Passou pouco mais de dois meses, mas parece que aquela semana em que o país entrou em estado de emergência foi há demasiado tempo. Dias e noites que se colaram na tentativa de estudar, readaptar e manter a ligação à distância com uma qualidade aproximada ao atendimento presencial. 

Nos dias seguintes à suspensão dos cursos de preparação para o nascimento e do atendimento presencial à grávida e às recém-mães e bebés, muitos emails e contactos telefónicos começaram a “chover”. As grávidas que estavam inscritas nos cursos que estavam a começar viram este acompanhamento desaparecer sem data prevista de retoma e muitas mães viram-se sozinhas, com a rede de suporte familiar e social afastadas.

O meu primeiro pensamento foi de que as grávidas iriam continuar grávidas (pelo período de tempo esperado, no mínimo!) mas mais sozinhas, no seu confinamento, logo mais ansiosas e com mais dúvidas para esclarecer. As mães que estavam em casa com os seus bebés iriam também estar mais distantes da família ou da rede de suporte e também mais fragilizadas pela situação de insegurança.

Pensei que mais do que nunca, a enfermeira especialista que as acompanhava na gravidez ou na vida com os seus bebés, teria de se fazer ver ou ouvir para manter alguma “normalidade” e para esclarecer pequenas dúvidas que podem parecer triviais para alguns mas que para quem está grávida ou tem a responsabilidade de cuidar de um bebé, se afiguram como verdadeiras quebra-cabeças!

Então resolvi trazer “as aulas e as consultas para casa”, todo o material prático utilizado em cada aula (aleitamento materno, trabalho de parto e parto, técnicas de alivio da dor, higiene e massagem do recém-nascido, o período após o nascimento do bebé) passou literalmente a estar na sala (o local onde a internet é mais forte) juntamente com o meu computador portátil e uma parafernália de agendas, auriculares e suportes para o telemóvel. Comecei a falar sobre aleitamento materno através de uma videochamada pelo WhatsApp e utilizando o computador como “tela de projeção”. Depois graças à minha amiga Marta Leal, já habituada ao ensino e as consultas à distância, descobri o Zoom e o Skype. Uma colega, que também é amiga, já pela noite dentro também se disponibilizou a fazer vários testes pelo Skype.

 Enfrentei algumas semanas de áudios no WhatsApp sobre alimentação complementar nos bebés, vídeos sobre resolução de problemas com a amamentação, mensagens de motivação para as recentes mães que duvidavam das suas competências e inúmeras sessões individuais com grávidas ou em pequenos grupos. Algumas delas só as conheço através do ecrã do computador, mas partilhámos tardes de conhecimento em que uma enfermeira sem máscara, lhes desviou o olhar das notícias que passavam na televisão. Tardes em que pessoas que ainda não se conheceram pessoalmente partilharam sugestões, dicas, dúvidas e muito boa disposição. Não é fácil simular a sucção de um recém-nascido com uma mama artificial ou a fisiologia do trabalho de parto com o saco de pano onde se arrumam os sacos de plástico. Mas é possível pelo menos tentar que o que era explicado “ao vivo e a cores” chegue aquela pessoa e lhe dê a confiança que precisa para não desistir e continuar a acreditar que, independentemente das circunstâncias, vai ser a melhor mãe do mundo porque vai dar o melhor que tem e sabe com o coração.

Acompanhei pelo whatsapp várias grávidas em trabalho de parto numa altura em que a presença do acompanhante não era permitida no hospital, mas o telemóvel sim. Portanto, fui uma “acompanhante” à distância, ao longo de várias madrugadas a tentar motivar e a transmitir confiança a quem estava do outro lado do telefone. Os bebés que nasceram nos primeiros tempos em que o país “fechou”, prosseguiram o seu desenvolvimento como pessoas pequeninas que são, arrancando sorrisos e derretendo o coração de quem os vê crescer.

A consciência de “não cruzar os braços” e ir ultrapassando as dificuldades técnicas e materiais foi determinante para que com os meus recursos “domésticos” continuasse a chegar uma voz e uma imagem profissional a quem procurava o conhecimento aliado à empatia. Ouvi vários palpites, na onda do “ah então com as aulas online até podes ter mais grávidas no grupo, porque não estás limitada à lotação de uma sala física”. Pois…, mas não...é mesmo ao contrário…nos grupos maiores perde-se o sentimento de identidade, diminui-se a capacidade de interação, a criação de laços com as caras que se estão a ver num ecrã. O objetivo foi sempre que  uma aula se constituísse como um momento de partilha, tentando “esquecer” que a pandemia nos estava a alterar a forma de estar e sentir a vida e proporcionando também uma forma de “convívio seguro” numa altura em que a solidão se manifestou de diferentes maneiras para cada um. E numa altura que os sorrisos não abundavam foi mesmo possível arrancar algumas gargalhadas pela forma “cómica” com que tentava fazer demonstrações práticas.

O lema era, foi e será sempre, “vocês são as pessoas mais sortudas deste momento…vão ter um bebé!!!” em que esperemos que o “quarentene in the screen” seja transitório. Uma homenagem à vida, aos sorrisos e à ternura que os bebés despoletam nos nossos corações.

Odivelas, 31 de maio de 2020