O NOVO NORMAL E ANTIGAS PREOCUPAÇÕES

O NOVO NORMAL E ANTIGAS PREOCUPAÇÕES
em 2020-07-13 Ano: 2020
Crónicas de uma pandemia_VF.png
Autor(es)

Alexandra Bento

Bastonária da Ordem dos Nutricionistas


O novo coronavírus, denominado SARS-CoV-2, tem gerado alterações na atividade quotidiana da população, devido à necessidade de responder a este desafio pandémico.

Em Portugal, após cerca de dois meses de medidas de distanciamento radicais, com uma boa resposta das autoridades, das organizações e da população, passamos para uma fase de desconfinamento, onde se pretende gerir as transições entre diferentes estadios na saúde pública do país.

Na primeira fase, persistiram dúvidas quanto à transmissibilidade do novo coronavírus pelos alimentos. Se é certo que não há evidência de que a COVID-19 possa ocorrer do consumo de alimentos, a literatura diz-nos que, aplicando do princípio da precaução, devem ser reforçadas as boas práticas de higiene e segurança dos alimentos.

A Ordem dos Nutricionistas, desde o início desta pandemia, procurou clarificar estas questões, alertando também para outras situações, nomeadamente as alegações associadas a alimentos, potencialmente perigosas, reforçando a necessidade do recurso a fontes fidedignas de informação.

Mas, neste período, também adensou o receio da redução da produção e distribuição de alimentos com o encerramento das fronteiras e limitação de deslocações, bem como a quarentena exigida no caso de trabalhadores infetados. Para lá do pânico inicial com açambarcamento, sem fundamento, de produtos alimentares, a situação foi relativamente bem controlada, e salvo questões pontuais, não houve rutura no fornecimento de alimentos.

No nível institucional, alguns estabelecimentos que produzem refeições tiveram os seus serviços reduzidos ou paralisados, como é o caso das escolas. Mas, outros houve que foram desafiados a produzir em maior escala, como é o caso de hospitais e instituições de permanência de idosos, desafiados a adaptá-las às necessidades específicas dos doentes com COVID-19, bem como dos profissionais de saúde, no primeiro caso, e com reforço das medidas de higiene e segurança alimentar das refeições pela vulnerabilidade do público, em ambos os casos. Este foi um grande desafio que os nutricionistas souberam superar, sendo imperioso destacar a elevada capacidade de adaptação e de reorganização demonstradas pelos nutricionistas ao longo deste momento peculiar, quer nas empresas de restauração, quer nos hospitais, quer nas instituições de solidariedade, quer nas autarquias. 

No sentido de estar ao lado dos seus profissionais a Ordem dos Nutricionistas emitiu um vasto conjunto de recomendações sobre as boas práticas para a atuação. Numa fase de grandes desafios, os nutricionistas continuam a pautar a atividade profissional, nas diferentes áreas de atuação, pelos princípios éticos e deontológicos que regem a profissão, utilizando instrumentos científicos e técnicos adequados ao rigor exigido e desenvolvendo ações informadas e sustentadas pela evidência científica.

Um destaque particular para os nutricionistas que estiveram na “linha invisível” do Serviço Nacional de Saúde fazendo o devido acompanhamento nutricional dos utentes, quer na reestruturação de todo o circuito de fornecimento de refeições hospitalares, quer na manutenção das consultas de nutrição, maioritariamente à distância, nos cuidados hospitalares e nos cuidados de saúde primários, garantindo que os utentes continuaram a ser devidamente seguidos. Adicionalmente, e não menos essencial, os nutricionistas desempenham um papel fundamental nos doentes com COVID-19 em estado mais grave e crítico em ambiente hospitalar, nos cuidados intensivos. Estes doentes apresentam um elevado risco de desnutrição, pelo que o seu acompanhamento precoce, com o estabelecimento de um suporte nutricional adequado revela-se determinante para o prognóstico desta doença.

Porém, uma das maiores preocupações vindouras, será a insegurança alimentar. De facto, os resultados do estudo REACT-COVID da Direção-Geral da Saúde revelam que 32,7% dos portugueses reportaram preocupação ou incerteza quanto ao acesso aos alimentos por dificuldades económicas, e que 8,0% reportaram dificuldades económicas no acesso aos alimentos.  É importante não nos esquecermos dos que estão, bem como os que poderão ficar, numa situação de maior vulnerabilidade socioeconómica nesta pandemia, em particular como resultado do abrandamento da economia, com impacto no acesso a alimentos. 

Assim, a problemática da insegurança alimentar poderá agravar-se ainda mais no tempo, pelo que é essencial conjugar esforços para o desenvolvimento de uma estratégia que articule setores e atores sociais relevantes por forma a garantir o direito humano a uma alimentação adequada. 

O Governo conseguiu antecipar-se e reorganizar-se, na fase de confinamento, para uma resposta atempada para suprimir a transmissão do novo coronavírus. Mas, nesta nova fase, é importante que se adote uma nova estratégia de saúde pública para o presente e para o futuro próximo, cientificamente fundamentada, integrando as múltiplas dimensões de uma resposta à pandemia, contando com a participação de todos para a concretização dos resultados esperados, sem descurar todas as outras doenças que não a COVID-19. Recordemo-nos que o período de isolamento terá resultado num aumento de algumas doenças crónicas, como é o caso da obesidade. 

A COVID-19 é um dos grandes desafios em termos de saúde pública, mas tantos outros se podem juntar a este: o envelhecimento populacional, os maus hábitos alimentares, a desnutrição, as doenças crónicas, com destaque para a pandemia da obesidade, a insegurança alimentar e a sustentabilidade alimentar. Tudo somado à presença de um vírus pandémico entre nós. Este cenário é e continuará a ser o “novo normal”. 

Para melhor vencermos as antigas e as novas preocupações é imperioso uma nova estratégia de saúde pública de não negligencie os antigos problemas, sublinhando as questões alimentares como um grande determinante de saúde pública e os nutricionistas como o seu agente.

Lisboa, 7 de julho de 2020