A GESTÃO DA PANDEMIA NUMA ULS

A GESTÃO DA PANDEMIA NUMA ULS
em 2020-07-14 Ano: 2020
Crónicas de uma pandemia_VF-peq.png
Autor(es)

Margarida Filipe

Enfermeira Diretora da Unidade Local de Saúde Matosinhos

Doutorada em Enfermagem na Especialidade em gestão de Unidades de Saúde e Serviços de Enfermagem


Mal eu sabia, que quando parti de férias para a Índia no início de Março que o SARS-CoV-2 chegaria tão rápido à Europa e quase me impediria de regressar. 

Chegada da minha viagem atribulada e mesmo com muita vontade de ir trabalhar, dado que tínhamos vários elementos em quarentena, tal não me foi permitido, eu própria tive que ficar em casa resguardada de tudo e todos. Para ser sincera na altura achei um exagero, até porque o país de onde vinha, praticamente não tinha casos e eu tinha tomado todas as cautelas enquanto transitava nos vários aeroportos, hoje reconheço a importância de todas essas medidas para o controle da doença.

Logo passados alguns dias a DGS reviu as normas quanto às quarentenas dos profissionais de saúde, o que me permitiu ir trabalhar mais cedo.

O impacto do reinício foi terrível, direi quase assustador, o hospital estava quase vazio, não se viam doentes para as atividades programadas, não havia visitas e os profissionais que se encontravam em funções estavam confinados nos seus serviços. 

Entre 20 de Março e finais de Maio o trabalho foi de uma intensidade extenuante, o alinhamento da direção de enfermagem e direção médica com todas as outras áreas de suporte foi fundamental para dar segurança aos profissionais. Frequentemente o que era hoje já não era amanhã, frequentemente tínhamos que adaptar as orientações da DGS às características da nossa população, das nossas instituições, frequentemente tínhamos que gerir a ansiedade, a incerteza e os medos. 

Houve fatos que nunca mais vamos esquecer e que mostram como em situação de catástrofe a liderança, organização das equipas, a gestão do stresse, mas sobretudo a visão estratégica das necessidades e a sua antecipação é fundamental. Abrimos serviços e alocámos equipas, de um dia para o outro, começamos desde o início a usar máscara cirúrgica e a testar todos os doentes com critério de internamento mesmo quando ainda havia dificuldade em adquirir material de colheita e testes, articulamos com a autarquia não só no diagnóstico epidemiológico da população, mas em novas respostas. 

A situação sanitária resultante da pandemia impôs medidas extraordinárias, para salvaguarda dos cidadãos, designadamente os mais vulneráveis, houve necessidade de alterar a produção, de reconverter espaços e redefinir novos fluxos. Para dar resposta a doentes críticos construímos uma nova unidade de cuidados intensivos em menos de um mês, com 11 quartos individuais com pressão negativa com ligação direta à anterior unidade o que permitiu uma maior rentabilização dos recursos, tudo isto sem custos para a Unidade Local de Saúde de Matosinhos (ULSM), feito com o com apoio da Camara Municipal da cidade e de mecenas do concelho. Criaremos ainda um novo espaço, reconvertendo temporariamente o ginásio de Medicina Física e Reabilitação (MFR), dotando-o de condições suficientes para contribuir para o suporte ventilatório de mais doentes caso fosse necessário.

Para um atendimento descentralizado e mais próximo das pessoas montámos quatro atendimentos para doentes COVID 19 (ADC) nos centros de saúde de Matosinhos

As necessidades de cuidados continuados foram asseguradas por um Centro de Apoio Comunitário, situado num hotel, que equipámos com camas articuladas e colchões anti escaras para dar as melhores condições de alojamento a doentes positivos que provinham de lares ou do internamento hospitalar e não tinham condições de isolamento no domicílio, mas também com equipas de profissionais capazes de prestarem os cuidados com toda a segurança, estas respostas resultaram de uma parceria estreita entre a ULSM e a Câmara Municipal, através da proteção civil.

Mais uma vez, o facto de sermos uma Unidade Local de Saúde, veio não só facilitar a nossa intervenção como permitiu atingir resultados de modo mais eficiente. Não podemos esquecer que o concelho de Matosinhos chegou a ser dos que estavam na linha da frente com um número elevado da população contaminada e aquele que provavelmente teve o maior número de casos num Equipamento para Pessoas Idosas (EPI). 

A capacidade na gestão de recursos humanos, alocando as necessidades e competências aos serviços também esteve facilitada com este modelo integrativo, assim foi possível reforçar a nossa Unidade de Saúde Pública com vários profissionais que desempenhavam funções em outras unidades dos Centros de Saúde e no Hospital. Para além de médicos de Saúde Pública e enfermeiros, tivemos a colaborar: dentistas, Técnicos superiores de Diagnostico e Terapêutica, nutricionistas, Assistentes Técnico, entre outros. Foram mobilizados vários enfermeiros e assistentes operacionais dos centros de saúde para os internamentos COVID do hospital, incluindo o serviço de urgência e de cuidados intensivos. Repito, tudo isto só foi possível com a grande colaboração dos profissionais, mas sobretudo porque a integração de cuidados num modelo organizacional como a ULSM assim o permite.

Não posso deixar de referir o dantesco trabalho dos serviços de compras e de logística. A grande necessidade de alguns equipamentos e a dificuldade na sua aquisição foi constante. Os serviços trabalharam 24 sobre 24 horas para dar resposta às necessidades e não cairmos na situação catastrófica em que se encontravam alguns países e cujas imagens passavam todos os dias nos nossos écrans de televisão. A articulação com os fornecedores, que muitas vezes estavam em rotura, a procura de novos fornecedores, a articulação com as reservas e aquisições nacionais foi fundamental para não termos roturas que pusessem em causa a segurança dos profissionais e dos doentes. 

Outro aspeto fundamental que na minha opinião garantiu respostas atempadas, foi a capacidade e diria mesmo, flexibilidade para encontrar novas respostas e nos adaptarmos à mudança, para além dos serviços já referidos não posso deixar de citar o nosso laboratório de microbiologia, que se reorganizou não apenas para dar resposta aos nossos doentes internos e externos como aos do Centro Hospitalar de Póvoa Vila do Conde, chegando a fazer mais de 300 testes por dia; a Comissão de Controle Infeção e Resistência aos Antibióticos (CCIRA) e serviço de infeciologia que trabalharam com grande proximidade com as equipas clínicas e não clínicas na construção de orientações precisas para melhor controlo da infeção, o gabinete de saúde ocupacional no acompanhamento de todas as situações de doença nos profissionais, que na ULSM representaram cerca de 10%, onde mais de metade destes foram enfermeiros, mas também na sua prevenção e reabilitação e por fim o gabinete de comunicação, fundamental nestes processos para dar resposta à gestão da informação interna e externa.

Como reflexão em jeito de conclusão quero enaltecer a gestão política de todo este processo, o grande profissionalismo de todos os profissionais de saúde, a sua dedicação total à causa pública e aos seus doentes; e o envolvimento de toda a comunidade civil tanto no que foi a ajuda com o vários donativos, como ainda, e no meu entender muito mais importante, o cumprimento de todas as orientações. Esperemos que neste momento de desconfinamento e retoma da atividade económica, tão importante para o nosso país e para a nossa saúde física e mental, saibamos todos, garantir a continuidade do sucesso de todo o esforço feito pelos Portugueses.

Matosinhos, 17 de junho de 2020