BREVE DESCRIÇÃO DAS ACTIVIDADES REALIZADAS NO HOSPITAL DAS FORÇAS ARMADAS NO CONTEXTO DA PANDEMIA COVID-19

  • Início
  • Artigos
  • BREVE DESCRIÇÃO DAS ACTIVIDADES REALIZADAS NO HOSPITAL DAS FORÇAS ARMADAS NO CONTEXTO DA PANDEMIA COVID-19
BREVE DESCRIÇÃO DAS ACTIVIDADES REALIZADAS NO HOSPITAL DAS FORÇAS ARMADAS NO CONTEXTO DA PANDEMIA COVID-19
em 2020-07-15 Ano: 2020
Crónicas de uma pandemia_VF.png
Autor(es)

António Oliveira Anão 

Diretor Clínico do Hospital das Forças Armadas (Sócio Institucional da APDH)


Com o registo dos primeiros casos de infecção pelo agente COVID-19 a ocorrer nos primeiros dias de Março de 2020, o Hospital das Forças Armadas (HFAR) desenvolveu um Plano de Contingência elaborado, à data, em muito poucos dias, encontrando-se, na generalidade, efectivado a partir da 3ª semana do referido mês. Neste Plano foram definidos princípios, normas e procedimentos de actuação e, sempre que necessário, particularizados aspectos específicos relacionados com os Polos Hospitalares de Lisboa e Porto. Das principais alterações implementados em ambos os Polos, salienta-se a total separação de circuitos para doentes suspeitos de infecção pelo agente em causa, tendo, neste contexto, sido criado um processo de “pré-triagem” ainda fora do edifício Hospitalar, de forma a proporcionar a necessária separação de doentes no Serviço de urgência. Este processo foi estendido a toda a estrutura clínica, incluindo enfermarias, bloco operatório e diferentes unidades hospitalares, sendo, na prática, criadas duas estruturas, fisicamente separados, procurando desta forma obviar a criação de focos de infecção e cadeias de transmissão intra-hospitalar.

 Na expectativa de um grande afluxo de doentes, de acordo com os cenários calamitosos que então se viviam em diversas cidades do continente europeu, foi aumentada a capacidade de internamento, com a criação de novas enfermarias, salientando-se, em particular, a realização de obras de adaptação de 3 largos espaços no Polo do Porto e, no Polo de Lisboa, para além do aumento das camas de enfermaria, a instalação de mais 14 camas com capacidade para suporte ventilatório em ambiente de cuidados intensivos. Desta forma, foi rapidamente criada maior capacidade de resposta, em particular para os casos de maior gravidade clínica. Estes aspectos foram ainda reforçados pela instalação no HFAR do Hospital de Campanha do Exército, que se manteve disponível como reserva, na hipótese de agudização do panorama epidemiológico. 

Em paralelo com as ações referidas, foram criados procedimentos para manter a capacidade assistencial “não-Covid” em todos os serviços hospitalares, sendo elaboradas listas de todas as consultas, cirurgias e exames complementares programados e, neste âmbito, realizados contactos telefónicos para realização de teleconsulta ou reagendamento dos casos menos urgentes. Apesar dos condicionalismos referidos, foi possível manter a regular capacidade assistencial e preparar o Hospital para um grande afluxo de doentes “Covid +”, que, felizmente, não veio a verificar-se até agora. Neste contexto, apesar de não se ter chegado a elevadas taxas de ocupação no Polo de Lisboa, a preparação efectuada foi particularmente útil no Polo do Porto, onde veio a verificar-se um importante apoio à sociedade civil, materializado pelo internamento de mais de 80 idosos provenientes de diversos lares da cidade do Porto e regiões limítrofes. Estas instituições encontravam-se afectadas por surtos epidémicos generalizados, constituindo sério problema de saúde pública, agravado pela infecção e quarentena da maior parte dos cuidadores que aí prestavam serviço. Após realização de testes de diagnóstico, veio a verificar-se que a vasta maioria dos idosos referenciados se encontrava infectada, sendo neste contexto, tratados e mantidos em internamento até negativação dos resultados. Já em fase posterior, durante o final do mês de Junho e início de Julho, salienta-se a projecção de médicos e enfermeiros do HFAR, em escala integrada com elementos da saúde operacional dos 3 ramos das forças Armadas, para um lar em Reguengos de Monsaraz, integrando uma operação de apoio sanitário conjunta com elementos do sistema de protecção civil e da ARS do Alentejo.

É importante salientar que este esforço de planeamento, levantamento de estruturas e, em particular, de execução técnica, só foi possível com grande empenhamento de todos os militares e civis colocados no HFAR, mas também com o reforço de meios humanos e materiais proporcionados pelos três ramos das Forças Armadas e voluntários provenientes das mais diferentes áreas da sociedade civil. Neste contexto, foi particularmente relevante o trabalho de formação contínua dado a todos os profissionais e voluntários que prestaram e prestam serviço no HFAR, sendo possível implementar o conceito de “Hospital Seguro”, evidenciado pelo facto de, até à data, se ter verificado uma taxa muito reduzida de infecção em profissionais de saúde directamente envolvidos na actividade assistencial, bem como de transmissão a doentes internados.

Ainda no apoio às Forças Armadas e família militar, é importante referir a articulação com a Direcção de Saúde Militar localizada no Estado-Maior-General das Forças Armadas, em particular no que diz respeito à partilha de informação técnica e apoio à “linha telefónica de atendimento Covid”, sendo, neste âmbito, montado um sistema de realização de exames diagnósticos a elementos referenciados em regime ambulatório - “drive through” - limitando assim a possibilidade de transmissão hospitalar do agente infeccioso.

De salientar, por último, a participação do HFAR em diferentes projectos de investigação académica relacionados com a Pandemia, bem como a colaboração com entidades do mundo empresarial no âmbito do desenvolvimento de protótipos industriais de ventiladores de baixo custo e equipamentos de protecção individual, tais como máscaras integrais e fatos de protecção integral. Muitos destes projectos encontram-se em fase avançada de desenvolvimento, podendo vir a ter materialização futura, se o cenário epidemiológico o justificar. 

Lisboa, 10 julho de 2020