LUTAR POR UM BOM ANO FUTURO

LUTAR POR UM BOM ANO FUTURO
em 2020-07-16 Ano: 2020
Crónicas de uma pandemia_VF.png
Autor(es)

Helena Canhão

Professora Catedrática da NOVA Medical School e da Escola Nacional de Saúde Publica, Universidade NOVA de Lisboa

Responsável da Unidade de Reumatologia, CHULC-Hospital Curry Cabral

Presidente Eleita Sociedade Portuguesa de Reumatologia


Começámos o Ano de 2020 com a expectativa e a segurança de que iria ser um Bom Ano.

Com o turismo a crescer, o país seguro, as cidades mais bonitas e mais emprego, o Ano seria com certeza bom. Obviamente que alguns problemas eram evidentes, como a justiça lenta e pouco justa, a dificuldade de muitos no acesso ao serviço nacional de saúde, as eternas desigualdades de que quem nasce com piores condições tem menos sucesso escolar e menos saúde. 

Mas apesar dos problemas e desafios, na generalidade o ambiente era de otimismo. E assim foi janeiro e começou fevereiro. No Carnaval começámos a ouvir cada vez mais histórias de infetados em Itália. Na primeira semana de Março percebemos que a realidade também já era nossa e de repente, a partir do meio de março, a nossa vida e do país alterou-se de forma súbita e radical. Não estávamos preparados como indivíduos, famílias, empregados, empregadores, profissionais de saúde, unidades de saúde, alunos, professores, país, europa e mundo em geral. E em Itália e Espanha somavam-se os mortos que queríamos evitar a todo o custo. 

Fomos bons a recolher-nos em casa, a trabalhar à distância, a utilizar plataformas tecnológicas e a diminuir a sobrecarga do sistema de saúde nas consultas e cirurgias eletivas. Mas tornámo-nos mais sedentários, os com menor acesso à tecnologia ficaram mais isolados, perderam-se muitos empregos, a interação social presencial caiu a pique e ficámos perdidos em relação ao futuro. Não sabemos quando teremos uma vida normal, nem o que será o futuro normal.

Nos serviços de saúde o normal deixou de existir. O SARS-COV2 desviou para si a maioria dos recursos e cuidados. Novos circuitos foram montados, os serviços reorganizaram-se, internos e médicos de várias especialidades viram convertidas as suas atividades habituais, cirurgias e consultas foram adiadas, e depois as consultas presenciais transformadas em consultas à distância, o ensino em geral e o ensino dos futuros profissionais de saúde também passou a ser feito à distância, com suspensão de ensino clínico. E o tempo passou. 

Já passou mais de metade do Ano de 2020 e continuamos num limbo. Novas infeções vão continuar e os novos surtos vão continuar a surgir. Temos menos de 3% da população geral exposta ao vírus e não sabemos se a que já foi exposta está protegida e por quanto tempo. Já retomámos consultas presenciais, tentamos reiniciar atividade cirúrgica eletiva, mas subitamente um caso de infeção num serviço não COVID, num lar, numa escola, numa fábrica, e voltamos novamente a recuar, a isolar contactos, a suspender a atividade, a lamentar infeções e mortes.

Até dispormos de vacinas ou tratamentos seguros e eficazes, temos que aceitar que o nosso novo normal é este. Que temos que voltar ao trabalho presencial, que as atividades têm de ser retomadas, que os indivíduos e a sociedade têm de funcionar. 

No nosso novo normal temos de manter distanciamento social, higienização, máscaras, circuitos separados nos serviços de saúde, cuidados especiais em lares, proteção dos grupos vulneráveis mas temos como sociedade de voltar a trabalhar e produzir, como professores prestar o ensino com a melhor qualidade possível, e como profissionais de saúde, retomar a atividade assistencial, controlar as doenças crónicas, evitar complicações e agir adequadamente nas situações agudas.

Não podemos deixar crescer as desigualdades, deixar de assistir aos que mais precisam e deixarmos que o fado nos invada e que nos diga que a desgraça é inevitável. Se não reagirmos, se não formos proactivos, se não acreditarmos e não atuarmos e trabalharmos com otimismo, resiliência e vontade de ultrapassar as dificuldades, não é só 2020 que não é um bom ano, teremos muitos mais maus anos pela frente. Não queremos isso com certeza. Queremos ser mais fortes, saudáveis, felizes e iguais. Todos teremos que trabalhar e lutar por isso e para isso.           

Lisboa, 10 Julho 2020