A MINHA "EXPERIÊNCIA" DA PANDEMIA

A MINHA "EXPERIÊNCIA" DA PANDEMIA
em 2020-07-30 Ano: 2020
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Autor(es)

Ana Maria Picado  

Enfermeira Chefe

Mestre em Comunicação em Saúde

Especialista em Enfermagem Médico-cirúrgica

Gabinete de Gestão de Programas de Qualidade

Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central


Sou enfermeira e integro o Gabinete de Gestão de Programas de Qualidade. Com a evolução da pandemia, pareceu-me que poderia dar um contributo diferente à instituição e aos meus pares se fosse incluída em outra equipa de trabalho/cuidados. Assim aconteceu… foi com agrado que fui colaborar com a Saúde Ocupacional do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central (CHULC) em meados do mês de março.

Esta equipa multiprofissional, à semelhança de todas as outras também ela, em excesso de atividade e com défice de recursos humanos, recebeu-me de braços abertos e com muita vontade de me “fazer sentir em casa”. Fiquei sediada no Hospital de Santo Antonio dos Capuchos, onde se encontrava a “equipa COVID”. A Saúde Ocupacional e Medicina no Trabalho, encontra-se distribuída pelos seis Polos hospitalares que constituem o CHULC, e desde o inicio da situação de pandemia, tem assegurado parte das suas atividades de seguimento aos profissionais.

Enfermeira há mais de 36 anos, na sua maioria “vividos” em unidades de cuidados intensivos, e os últimos vinte, na área de gestão, sentia-me uma ignorante nos aspetos de acompanhamento de profissionais a nível da Saúde Ocupacional e Medicina no Trabalho. Era a altura certa de “arregaçar as mangas…e aprender “.

Trabalhámos em equipa, (médicos, enfermeiros, técnicos de saúde e segurança no trabalho e assistente técnico) com esclarecimento de duvidas, processos integrados e estabelecimento de estratégias de atuação. Como “ferramentas de suporte”, o telefone, telemóveis próprios e email criado para a equipa. Praticamente tudo tinha que ser feito:

  • Rastreio de profissionais /doentes infetados para determinação de contactos de alto e baixo risco, assim como dos grupos de risco;
  • Identificação de sinais e sintomas, com vista a isolamento profilático/isolamento de quarentena;
  • Aconselhamento sobre a utilização de Equipamento de Proteção Individual (EPI) e respetivo ensino;
  • Identificação de dados demográficos para posterior acompanhamento e casuística hospitalar; 
  • Agendamento de teste “Covid-19”
  • Participação de resultados dos testes de zaragatoas;
  • Validação da auto- monitorização; 
  • Esclarecimento de todo o tipo de dúvidas apresentadas, desde sintomatologia referida, a tipo de medidas de isolamento no domicilio/ em comunidade; 
  • A justificação das incapacidades temporárias/ausências ao trabalho;
  • Atualização do Plano de Contingência da instituição, elaborado previamente em finais de fevereiro, mas com necessidade de revisão;
  • Contacto constante com as estruturas GCL-PPCIRA e Patologia Clinica.

Como tudo o que se desconhece, este vírus, trouxe muita incerteza e inclusive insegurança. As diretrizes emanadas pela Direção Geral de Saúde tanto na forma de Orientações Clínicas, como na de Normas de Orientação Clínica, assim como as emanadas pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) eram atualizadas quase diariamente. Em simultâneo, o Conselho de Administração do CHULC, juntamente com as varias estruturas existentes, (Programa de Prevenção e Controle de Infeção e de Resistência Anti microbiana, Gabinete de Segurança do Doente, Área de Gestão de Instalações Equipamentos, e outros) emitia também orientações acerca de circuitos a estabelecer, regras de visitas e de acompanhamento de doentes, utilização correta de EPI’s pelos profissionais de saúde, circuitos do doente Covid, teste de rastreio ao doente adulto….Todo este manancial de informação tinha que ser integrado e implementado rapidamente por todas as Áreas/Especialidades/Unidades e Estruturas existentes, e também a SO, definiu estratégias, implementou dinâmicas e integrou percursos.  

Foi pertinente a estreita colaboração entre o serviço de Infeciologia do Hospital de Curry Cabral, a Patologia Clínica e a Área de Gestão das Tecnologias de Informação.  Das varias atividades que inicialmente eram efetuadas de um modo “simples e básico”, (através de telefone/telemóvel e email) surgiu a melhoria…. e conseguimos rentabilizar o “nosso tempo”, com:

  • A utilização da transmissão de resultados de testes via SMS, para o próprio; 
  • O acesso e disponibilidade da Plataforma TRACE COVID 19, para o registo e monitorização ativa de profissionais “positivos” ou de elevado risco (até validação de resultado de teste);
  • A Possibilidade de aumento de rastreios a profissionais, que de acordo com a especificidade do serviço/unidade onde desempenhavam funções, ou perante o perfil de doentes que tratavam, poderiam preventivamente ser testados.

O intuito foi essencialmente o de garantir a segurança de prestação de cuidados a doentes e profissionais, nomeadamente nas Unidades de Cuidados Intensivos e Serviço de Urgência Geral Polivalente, nos Serviços de Oncologia Medica e de Hematologia, bem como de Medicina Interna. Os responsáveis foram extremamente acessíveis a alterações de regimes de horário, à criação de “equipas em espelho”, aumento do horário de trabalho /turno e ao estabelecimento das regras de distanciamento, redução/abolição de encontros e reuniões, bem como à consulta não presencial, sempre que possível.

A Coordenação da SO, com frequência manteve o contato com as suas congéneres de instituições Hospitalares/Centro Hospitalares do Centro e Norte do país, assim como com alguns Delegados de Saúde, de maior proximidade com o CHULC e de algumas áreas residenciais de profissionais. Foi primordial ajustar comportamentos e decisões, esclarecer critérios de intervenção e identificar o “porquê”. Apraz-me referir que esta Saúde Ocupacional foi uma das mais interventivas a nível de acompanhamento e de rastreio dos seus profissionais, cumprindo com as orientações emanadas. A atualização da sua atividade aconteceu regularmente, com reuniões de “briefing” ao final do turno de trabalho. As decisões tomadas por vezes não foram as desejadas, mas sim as possíveis e necessárias no momento, para dar resposta ao solicitado. As “batalhas” foram e são travadas quase diariamente…o resultado, saberemos no final deste grande combate….

Quase em simultâneo, foi criada uma linha de apoio emocional via telefone/email, de acompanhamento, a qual a Psicóloga da equipa também participou, em colaboração com outras estruturas do CHULC.  A esta, todos poderiam recorrer mantendo a sua individualidade e privacidade. Sim, nós profissionais de saúde, habituados a conviver com microrganismos multirresistentes, doenças e síndromes raros, doentes em falência multiorgânica … assim como com a vida e a morte, perante este enigma que nos assolou, passamos a ser simples seres humanos, pais, irmãos, filhos, colegas, cheios de dúvidas, anseios e medos. O apoio emocional e uma escuta ativa (dados nesta nova modalidade) revelou-se de extrema utilidade, a partir do final de março.

Na continuidade da identificação de casos isolados de positividade, quer de doentes ou de profissionais, assim como na identificação de “clusters”, a capacidade de resposta desta equipa foi amadurecendo e desenvolvendo competências. Já não estávamos a “zero” …. Conseguíamos continuar a percorrer um caminho, que embora tortuoso, nos permitia olhar para um futuro a curto prazo com outra organização e capacidade de resposta. Na continuidade da evolução esperada, surgiram os testes serológicos para determinação de existência ou não de imunidade, os testes de rastreio de resposta mais rápida, e a sempre esperada vacina contra este vírus…que ainda aguardamos. Muito provavelmente, o próximo surto trará as devidas mutações no seu agressor.

Acompanhei esta equipa cerca de doze semanas. Foi muito grato ter tido esta oportunidade de aprendizagem através do conhecimento transmitido, pesquisa efetuada, discussão, validação e convívio com profissionais conhecedores do seu “Saber, Saber”.

Como profissionais de saúde existimos para cuidar/tratar do doente, família e comunidade, mas a Equipa da Saúde Ocupacional, existe para se preocupar e cuidar de nós.   

Lisboa, 22 de julho de 2020