CONFINADOS, MAS NÃO PARADOS

CONFINADOS, MAS NÃO PARADOS
em 2020-07-31 Ano: 2020
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Autor(es)

Fernando Vasco Marques 

Médico de Saúde Pública

Presidente da Médicos do Mundo 


A COVID-19 teve, e continua a ter, um enorme impacto na sociedade portuguesa e, consequentemente, em todas as suas organizações, seja qual for a sua natureza. A Médicos do Mundo (MdM) não tem sido excepção.

Face às circunstâncias particulares criadas pela epidemia, a MdM, orientada pelo seu impulso identitário, “ir onde os outros não vão, testemunhar o intolerável e prestar cuidados de saúde gratuitos”, e baseada na sua experiência de duas dezenas de anos de actuação em situações de emergência e catástrofe (Timor, Sri Lanka, Iraque, Haiti, Guiné-Bissau,  Moçambique, Portugal), tomou rapidamente medidas no sentido de manter o compromisso que tem para com as populações vulneráveis que acompanha regularmente (pessoas em situação de sem abrigo, idosos, refugiados, migrantes indocumentados, trabalhadores de sexo, utilizadores de substancias psicoactivas, e se possível, tornar-se útil para a sociedade em geral na situação.

Assim, rapidamente formou um Grupo de Crise constituído pela Directora Executiva, Directora de Projectos Nacionais e Internacionais e Directora de Recursos Humanos, que passou a orientar a acção de toda a organização, em conformidade com o Plano de Contingência, adaptando as orientações da DGS face à evolução da situação epidemiológica no país até aos dias de hoje, elaborado especificamente para o efeito, o qual entrou em vigor a 13 de Março, e que só agora e aos poucos, está a deixar de ser utilizado.  

Este Plano de Contingência contem uma avaliação do risco à infecção de cada posto de trabalho (vulnerabilidade individual e do contexto de trabalho), estabelecia para cada posto um modelo de trabalho teletrabalho total ou parcial, linha da frente) e definiu por projecto/actividade a sua suspensão ou continuidade (parcial ou total). 

Em simultâneo, a MdM, manifestou junto dos seus parceiros e actores no terreno toda a disponibilidade para ajudar no que pudesse, mediante a sua capacidade instalada. 

Também, como costuma acontecer em situações de emergência, ocorreram à MDM diversos voluntários (actualmente estão em actividade cerca de 80) que, não só foram afectos às equipas de terreno, bem como às equipas de suporte, nomeadamente, comunicação e angariação de fundos, voluntariado, logística e apoio de pares.

Também os projetos internacionais da MdM foram afectados. Embora se tenham mantido.

Acreditando que o nosso trabalho pode fazer a diferença mantivemos as nossas equipas no terreno, em Moçambique. Adaptámos estratégias diariamente para tentar deter o vírus, distribuindo máscaras aos profissionais e população, implementando circuitos nos postos sanitários onde seja possível manter a distância adequada e promovendo acções formação sobre a doença COVID-19 e medidas de prevenção junto dos profissionais de saúde e população no geral.

Em termos de acompanhamento das acções no terreno alterámos a nossa forma de organização. Numa fase inicial o grupo de crise realizou diariamente reuniões com toda as equipas de terreno. A Direcção passou a reunir diariamente com o grupo de crise. Actualmente as reuniões com a equipa são semanais e o mesmo acontece com as reuniões de Direcção.

No geral, a nossa actividade aumentou, não obstante terem-se retirado do plano operacional os testes rápidos de rastreio de Infeções Sexualmente Transmissíveis (IST), infeções pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH), infeções pelo Vírus da Hepatite B (VHB) e C (VHC),   Diabetes deixaram de ser feitos. 

O Serviço de Apoio ao Domicilio diminuiu, pois, algumas famílias preferiram tomar conta dos seus idosos em isolamento, bem como o apoio social aos nossos utentes (apoio medicamentoso e ajudas técnicas). 

As equipas de rua de Lisboa, Porto e Barcelos, tornaram-se mais fixas dado que as Pessoas em Situação de Sem Abrigo (PSSA) passaram a ser acompanhadas nos locais em que foram confinadas, conforme o Plano de Contingência de cada Município.

A MdM ficou responsável por monitorizar o estado de saúde e prestar os cuidados básicos em cinco equipamentos em Lisboa e um no Porto, no total de 300 indivíduos. O apoio aos programas de Redução de Riscos e Minimização de Danos, onde se inclui o Programa de Consumo Vigiado em Lisboa, em parceria com Câmaras Municipais e Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), mantiveram as suas actividades, mantendo-se integrados na prestação de cuidados de saúde.   

Dada a situação de pandemia passou a ser emitido semanalmente um Boletim Epidemiológico com o número de novos casos por semana, a nível mundial, Europa, Portugal e na MdM. 

Este boletim é dirigido a toda a equipa MdM e à sociedade civil , e está disponível no nosso website https://www.medicosdomundo.pt/noticia/covid-19.

No início da pandemia, numa ação conjunta dos voluntários da MdM, da Secretaria de Estado para a Cidadania e Igualdade e de Embaixadas, foram publicados online materiais de prevenção. Nestes, numa perspetiva inclusiva, a MdM desenvolveu mensagens-chave sobre a doença COVID-19 (https://bit.ly/39f67YL) e traduziu o Plano Português de Desconfinamento (https://bit.ly/2WhdI5X) em 24 idiomas.

A resposta da MdM manteve as estratégias de promoção de ligação e religação das pessoas aos cuidados de saúde que já utilizava. Manteve-se ainda uma estreita colaboração com o Departamento de Saúde Pública da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) principalmente na fase de mitigação desta pandemia.

Em três meses de implementação, operacionalização e monitorização do Plano de Contingência, foram desenvolvidas diversas actividades, que estão resumidas no quadro 1. 

Quadro 1 – Indicadores de resposta da Médicos do Mundo, no período de 13 de março a 12 de junho. Fonte: MdM, 2020.


Actualmente está em curso o processo de desconfinamento, dentro dos condicionalismos impostos pela actual situação da epidemia do País. Assim a primeira medida foi avaliar a capacidade de retomarmos todas as actividades, tendo já retomado a realização de testes rápidos e o Serviço de Apoio ao Domicilio.

Hoje, quatro meses após a tomada das primeiras medidas entendemos ser de realçar:

1. A MdM nunca parou e procurou proteger quem nela trabalhava e o seu público alvo, o que foi conseguido;

2. A experiência anterior em situações de ajuda humanitária de emergência e catástrofe permitiu à MdM reorganizar-se com rapidez e eficácia; 

3.  O apoio psicológico a colaboradores e voluntários revelou-se um instrumento importante para o equilíbrio emocional daqueles que a ele recorreram, e teve efeitos positivos na organização;

4. Algumas formas organizativas que fomos forçados a utilizar com muita frequência (teletrabalho, webinars e outras formas de reunião não presenciais, processos de supervisão e acompanhamento de equipas) vieram para ficar e passarão a ser integrados no dia a dia da organização.

5. As situações de emergência evidenciam as potencialidades das ONG e a sua capacidade de complementar a acção dos serviços públicos, quer sejam da Administração Central, quer sejam da Administração Local;

6.  Situações de emergência são um momento de excelência para identificar e reforçar parcerias e o trabalho voluntário.

Termino esta crónica com uma palavra de louvor e incentivo não só, a todos os profissionais, voluntários e parceiros da MdM mas também, a todos os profissionais de saúde em geral e, em particular a todos os meu colegas de Saúde Pública, cujo trabalho invisível e carecido de meios, só por estas tristes e difíceis circunstâncias, infelizmente, tem vindo a ser mínima e publicamente reconhecido. 

Várzea de Sintra, 19 de Julho de 2020